"O
HOMEM QUE ESPANCA A MULHER."
Autor:José Roberto Paiva Publicado em 16/03/99
Através
dos trabalhos desenvolvidos pelo Centro de Estudos e Pesquisas
do Desenvolvimento da Sexualidade Humana, pudemos constatar
alguns aspectos do perfil psicológico do "marido
agressivo".
Basicamente em todos os casos, o homem possuía uma forte
"relação de posse" sobre a mulher. Seu
relacionamento com a mulher desenvolve-se como se ela fosse
uma "propriedade sua". Todos os casos apresentavam
uma forte tendência ao "ciúme obsessivo".
Vemos como ciúme obsessivo os casos onde as "cenas"
são constantes e infundadas. O ciúme é
desencadeado por qualquer motivo, por mais insignificante que
aparente. Concluímos que este tipo de homem possui forte
"grau de imaturidade emocional e afetiva".
É um adulto com reações emocionais e afetivas
de uma criança, pois possui grande dificuldade de lidar
com "frustrações" e com a própria
"agressividade". Suas reações diante
de frustrações são "primitivas ou
infantis".
Por exemplo: tal "brinquedo" me desagrada, eu o "destruo"."Se
você não brincar como eu quero eu não brinco
mais e, se insistir eu te bato".
Em todos os casos o indivíduo agressivo teve uma infância
marcada por situações de agressividade. Em sua
maioria, vieram de lares onde imperava o "exercício
de autoridade". Pais que constantemente brigavam física
ou verbalmente diante da criança. Pais que educavam usando
"o bater como forma pedagógica" para qualquer
situação. Pais que usavam constantes "ameaças"
para conseguir da criança um comportamento desejado.
PORQUE
O HOMEM BATE NA MULHER
Vamos separar em
itens os fatores desencadeantes de situações de
agressividade, embora em muitos casos eles encontram-se entrelaçados
ou interligados. A separação nos serve para um
melhor entendimento.
a) Problemas mentais
- grande parte dos homens agressivos apresenta traços
psicopáticos e, a situação onde ocorre
a agressividade funciona como um "surto da doença".
Boa parte apresenta traços "paranóides",
isto é, apresentam fantasias, medos e idéias persecutórias
profundamente irracionais.
Possuem fortes tendências à auto-destruição
e auto-agressividade. A mulher funciona como uma válvula
para suas tensões e seus "fantasmas". Ele transfere
para a mulher seus temores e tenta destruí-los nela,
o que evidentemente, pode gerar conseqüências gravíssimas.
São os casos onde a mulher é barbaramente espancada.
Outro fato é a forma "amor/ódio" em
relação a figura materna(que ele carrega da infância
para a vida adulta). Agride a "mãe" na mulher
logo depois, torna-se carinhoso e amoroso, demonstrando estar
muito arrependido. Só que a situação tende
a repetir-se sempre.
b) Falta de diálogo
- na maior parte dos casais, onde a mulher sofre agressões,
pudemos observar uma quase total falta de diálogo. São
aqueles casos onde o homem "tem sempre razão".
São aqueles casais com vasto histórico de brigas
verbais. O homem que chega à agressão física
é aquele que não admite estar errado e "impõe-se
pela força física". Popularmente é
"aquele que não dá o braço a torcer".
Nestes casos, observa-se que o tipo de mulher envolvida é
aquela que foi gerada e educada em um lar onde imperava o exercício
de poder(conforme citamos anteriormente).
Em seu histórico encontramos sempre : "papai brigava
sempre com mamãe". "Meu pai era muito severo,
batia em minha mãe e, se eu chorasse apanhava também".
"Me lembro de muitas discussões entre meu pai e
minha mãe, na minha infância". E assim por
diante.
c) Marido alcoolizado
- em grande partes dos casos o homem estava embriagado no momento
da agressão. Em outros a bebida é lugar comum
na vida do agressor. O homem que chega à agressão
pela bebida, tem uma forte censura psicológica e grande
insegurança quanto a sua masculinidade. A bebida age
como liberadora desta censura e desencadeia um auto grau de
agressividade que estava reprimida. São aqueles "tipos"
que quando embriagados dizem "faço e aconteço",
são os "machões"(movidos à álcool),
etc. Então em casa eles descarregam em sua mulher suas
"incompetências e insatisfações".
d) Dificuldades
sexuais - em grande parte dos casos observa-se total falta de
adequação sexual. A insatisfação
sexual gera discórdia e insegurança, podendo levar
a situações de agressividade. Em sua maioria,
os agressores sofrem de dificuldades com a ereção.
Outros, são tipo ansiosos com processos de ejaculação
rápida. Quase sempre a mulher não obtém
satisfação sexual com estes parceiros.
Outro tipo é o parceiro "sadomasoquista", aquele
que agride, depois torna-se extremamente carinhoso e procura
a mulher, sexualmente, como uma forma de reconciliação.
Outros são aqueles que no momento do orgasmo agridem
física ou verbalmente, diminuindo a mulher e aumentando
sua própria satisfação.
e) Auto-imagem
frágil - homens inseguros quanto a sua masculinidade
ou com o "papel de homem", sentem-se muito abaixo
de suas próprias expectativas no meio social. Não
conseguem cumprir suas próprias exigências do que
é ser um "verdadeiro homem" sentindo que os
outros são mais capazes. No meio sócio-profissional
são muito inseguros e em casa afirmam-se na mulher. "Em
casa quem manda sou eu", "só eu canto de galo","comigo
é assim , saiu da linha leva ..." e assim por diante.
"
A MULHER QUE APANHA DO HOMEM."
Vejamos alguns
aspectos do perfil psicológico da mulher agredida.
a) A aceitação
Existem casos em que a mulher ocupa certa cumplicidade na manutenção
do comportamento agressivo do parceiro. Mulheres originadas
em famílias onde a violência ou os castigos físicos
faziam parte do cotidiano, podem possuir marcas em sua estruturação,
que na vida adulta são desencadeantes de situações
agressivas.
Inconscientemente, buscam "repetir" situações
primitivas em suas relações. Estas marcas podem
influenciar também na escolha do parceiro. Este tipo
de mulher pode optar por parceiros propensos a agressividade,
como forma de solucionar problemas.
Na etapa do namoro chegam a admirar o comportamento agressivo
do parceiro.
Namorados "brigões" acabam sendo vistos como
tipos protetores e a atitude agressiva do parceiro contra os
outros, como forma de estar protegida. Parceiros ciumentos acabam
sendo "bem vistos" pois, o ciúme figura como
forma de "amor".
Podemos afirmar, que certas famílias praticamente educam
as filhas na aceitação de atitudes agressivas
por parte do homem. Elas educam a menina como um elemento "frágil"
e "necessitada de proteção". Em alguns
casos, na infância, "o apanhar" era registrado
como uma forma de afeto, era estar sendo protegida (dos próprios
erros) e querida. Em adulta, esta mulher pode sentir as atitudes
agressivas como "estar sendo gostada".
Fica claro que nos casos citados, a mulher é portadora
de problemas emocionais e precisa de ajuda psicológica
para elaborar estes "fantasmas"da infância.
b) As dificuldades
econômicas
Grande parte das mulheres que permanecem em relacionamentos
marcados por situações de agressividade verbal
e/ou física, alegam não ter condições
de se manter e nem aos filhos, se saírem da relação.
Este ponto é aceito de uma maneira geral, pela forma
"machista" da sociedade, onde o homem tem no dinheiro
uma forma de controle sobre a mulher. Em geral, a mulher que
sofre este tipo de pressão e agressão, já
aceitava a situação na fase do namoro e, na maioria
dos casos vem de famílias onde sua liberdade era controlada
pelo dinheiro.
Pais que ameaçam e/ou cortam o apoio financeiro da filha,
no sentido de obter "respeito, obediência, etc."
podem originar tamanha insegurança na filha que posteriormente
ela se sente incapaz, de sobreviver sem estar sendo "protegida"
por um homem.
A alegação : "como vou fazer para sobreviver
e/ou cuidar dos filhos se não tenho emprego nem dinheiro".
É a justificativa mais comum na manutenção
da mulher nos relacionamentos agressivos. De certa forma na
atual conjuntura este é o maior empecilho na solução
destes casos.
c) Sentimentos
de culpa
Boa parte das mulheres que permanecem em relações
agressivas, sentem-se culpadas por não ter realizado
um casamento tido como "ideal". Muitas acabam escondendo
que apanham dos parceiros. Foram educadas para cumprir um papel
: "o papel de mulher bem casada". Sentem-se incapazes
de aceitar o fato de que erraram na escolha.
Realizar um "bom casamento" é de certa forma
um "objetivo de vida" para este tipo de mulher. Falhar
neste intento, acaba sendo "pior" que a manutenção
de uma péssima relação. Algumas acabam
aceitando a idéia que é "o seu destino".
Como em geral, o parceiro agressivo torna-se "muito afetivo"
depois de situações violentas, a mulher vive na
esperança de que a relação "mude com
o tempo". Desta forma, o tempo vai passando, as dificuldades
aumentando e a solução se complicando. "Meu
casamento não é de todo ruim e os bons momentos
(raros) acabam compensando este lado negativo". Assim permanecem,
sem vislumbrar uma saída.
"
O QUE FAZER? "
"Agüentar
o destino"
esta primeira opção, embora pareça um tanto
irracional, é tomada por muitas mulheres. Conforme vimos
grande parte das mulheres esperam "que com o tempo mude".
Isto ocorre, porque de um modo geral o parceiro agressivo, torna-se
carinhoso, após a ocorrência de situações
agressivas. É importante lembrar que estas mudanças
ocorrem, não por arrependimento da ação,
e sim por sentimentos de culpa gerados por fantasias primitivas
(vindas da infância). Acreditando nestas súbitas
melhoras e achando que elas podem ser ampliadas, a mulher entra
no "jogo" e tenta então tornar-se mais carinhosa
ou então aproveita a situação para criticar
o fato ocorrido. Qualquer das duas opções não
impedem a repetição das situações
agressivas. A fonte geradora da agressão é alicerçada
na má estruturação da personalidade e,
portanto se não forem trabalhadas a nível psicoterápico
continuarão persistindo.
" Procurar
ajuda na família "
em muitos casos a ajuda da família pode ser valiosa,
pelo simples fato da situação agressiva não
estar encoberta. Muitas mulheres criam "histórias
"para justificar o aparecimento de ferimentos". Agindo
assim, praticamente estão dando o aval para a repetição
das agressões. A ajuda da família do agressor
pode ser de grande valia pois, os pais tem certa força
hierárquica sobre o agressor.
"Ajuda profissional
"
procurar este tipo de ajuda é sempre uma boa medida pois,
grande parte dos agressores tem certa consciência sobre
sua falha e podem aceitar esta ajuda.
"Um líder
religioso"
pode ser uma saída em vários casos pois, além
do fato de eles estarem habilitados para este tipo de situação,
tem também o fator hierárquico. Esta pode ser
uma forma de "refazer o plano de vida".
"Um psicoterapeuta
"
é o profissional mais habilitado para estes tipos de
casos. Em especial os de formação para "Terapia
de casais". Na terapia de casais, aprende-se a refazer
o plano de vida e superar a dificuldades que levam à
agressão.
"Um advogado"
é a saída, quando todas as outras possibilidades
forem esgotadas. Esta procura deve ser usada na organização
de um processo de separação. Em muitos casos a
separação acaba sendo válida, pois a manutenção
de uma vida a dois, marcada por situações de violência
é ruim para a mulher e péssima para a formação
dos filhos, os que mais sofrem com este tipo de situação.
"Centros de
ajuda comunitária"
são clínicas de atendimento gratuito, grupos de
apoio comunitário, "Delegacia da Mulher" ,
clínicas de universidades, e outros locais onde encontrar
ajuda. Isto se você não tem condições
financeiras para arcar com o ônus de uma ajuda profissional.