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GIRASSÓIS
Maria Rita Lemos
O que houve com sua cabeça? Fernanda nem se lembrava mais. Doía, latejava, como se mil tambores estivessem lá dentro, tocando, tocando. Como se o surdo da fanfarra, num desfile de Sete de Setembro, tivesse se instalado no seu cérebro, sem a menor cerimônia...
Recordou as manhãs coloridas de sol quente, dos desfiles de Sete de Setembro.
Ela tocava na fanfarra, enluvada, orgulhosa... Velhas e doces lembranças do Colégio da São José, com o famoso sagú da Irmã Benigna nas manhãs de gincanas.
De repente, lembrou-se: hoje é Sábado! Jorginho, ao seu lado, dormia profundamente, a boca aberta... uma saliva grossa corria lentamente do canto de sua boca.
Levantou-se, devagar, sentindo tontura. Foi até a cozinha preparar um café. Por toda a parte, vestígios da festa da noite anterior: garrafas vazias de vodka no chão da sala, papéis imundos no banheiro, resíduos de preparativos das drogas que todos, exceto ela, tinham usado e abusado...
Fernanda sorriu. Sessenta e dois dias limpa.... só por hoje. As únicas coisas das quais gostava, em todo esse apartamento repulsivo, estavam penduradas no teto, nas janelas, no armário do banheiro... por todo canto, ela pendurara girassóis bem amarelos, bregas mesmo, comprados com o troco do supermercado, numa loja de um e noventa e nove.
Jorginho não entendeu. Nenhum dos infelizes amigos dele entendeu. Só dona Fulvia, a vizinha do segundo andar, sabia da história dos girassóis. Aliás, dona Fulvia é quem vinha alimentando Fernanda, almoço e jantar, escondida de Jorginho, desde que ela resolveu ficar "limpa". Há sessenta e dois dias... magra e doente, necessitando fisicamente do pó para dormir e para acordar, para rir e para fazer amor. Fernanda casualmente (?) passou em frente a uma dessas lojinhas de um e noventa e nove, numa rua próxima ao apartamento no qual vivia, ou morria, quem sabe, com o namorado, escondida do resto do mundo. Onde se escondia da vida.
Um amarelo intenso chamou a sua atenção. Entre outras flores artificiais, girassóis enormes, de um amarelo profundo, de gosto duvidoso, lembraram-lhe seus últimos esforços para vencer a droga.
Fernanda fugira, há uma semana, auxiliada por Jorginho, de uma clínica para recuperação de viciados. De poucas coisas ela se lembrava, durante os dez dias em que lá estivera, contra a vontade. Uma delas era a profusão de girassóis no jardim.
Essas flores, imensas e alegres, lembravam a ela o seu pai. Aliás, o pai que Fernanda viu partir quando elato, ela pendurara girassóis bem amarelos, bregas mesmo, comprados com o troco do supermercado, numa loja de um e noventa e nove.
Jorginho não entendeu. Nenhum dos infelizes amigos dele entendeu. Só dona Fulvia, a vizinha do segundo andar, sabia da história dos girassóis. Aliás, dona Fulvia é quem vinha alimentando Fernanda, almoço e jantar, escondida de Jorginho, desde que ela resolveu ficar "limpa". Há sessenta e dois dias... magra e doente, necessitando fisicamente do pó para dormir e para acordar, para rir e para fazer amor. Fernanda casualmente (?) passou em frente a uma dessas lojinhas de um e noventa e nove, numa rua próxima ao apartamento no qual vivia, ou morria, quem sabe, com o namorado, escondida do resto do mundo. Onde se escondia da vida.
Um amarelo intenso chamou a sua atenção. Entre outras flores artificiais, girassóis enormes, de um amarelo profundo, de gosto duvidoso, lembraram-lhe seus últimos esforços para vencer a droga.
Fernanda fugira, há uma semana, auxiliada por Jorginho, de uma clínica para recuperação de viciados. De poucas coisas ela se lembrava, durante os dez dias em que lá estivera, contra a vontade. Uma delas era a profusão de girassóis no jardim.
Essas flores, imensas e alegres, lembravam a ela o seu pai. Aliás, o pai que Fernanda viu partir quando ela mesma tinha seis anos, que "foi morar com o papai do céu", como contou a mãe. Ele adorava tudo o que fosse grande.
Baixinho, alegre, seu pai casou-se com uma mulher grande, tinha um carro grande, fazia grandes aeromodelos que levava para brincar, aos sábados, sempre com Fernanda a tiracolo, com o boné da cor dos girassóis, bem amarelo.
Ela cresceu amando essas flores, e na clínica Oásis o jardim era forrado delas.
Nessa manhã, à frente da loja de um e noventa e nove, Fernanda sentiu falta da vida. Sentiu saudades do pai, da mãe, do irmão adolescente, que não via há mais de um ano... nessa manhã, Fernanda decidiu que pararia de usar drogas.
Contou o troquinho do supermercado, dava para comprar dez girassóis.
Entrou, pediu para embrulhar, orgulhosa de si mesma por não estar roubando, e levou para o apartamento.
Passou primeiro pelo segundo andar, dona Fulvia lhe deu pão de queijo, quentinho. Contou a ela, que entendeu, e deu força. Ela sempre entendia e encorajava, parecia sua mãe.
Subiu sozinha (dona Fulvia tinha medo do Jorginho), não disse nada ao homem que jazia no sofá, fumando um cigarro, nem ele perguntou nada. Subiu numa cadeira e foi pendurando girassóis, esparramando pelo quarto, sala e cozinha. O namorado já nem se importava com ela, ou com o que ela fizess mesma tinha seis anos, que "foi morar com o papai do céu", como contou a mãe. Ele adorava tudo o que fosse grande.
Baixinho, alegre, seu pai casou-se com uma mulher grande, tinha um carro grande, fazia grandes aeromodelos que levava para brincar, aos sábados, sempre com Fernanda a tiracolo, com o boné da cor dos girassóis, bem amarelo.
Ela cresceu amando essas flores, e na clínica Oásis o jardim era forrado delas.
Nessa manhã, à frente da loja de um e noventa e nove, Fernanda sentiu falta da vida. Sentiu saudades do pai, da mãe, do irmão adolescente, que não via há mais de um ano... nessa manhã, Fernanda decidiu que pararia de usar drogas.
Contou o troquinho do supermercado, dava para comprar dez girassóis.
Entrou, pediu para embrulhar, orgulhosa de si mesma por não estar roubando, e levou para o apartamento.
Passou primeiro pelo segundo andar, dona Fulvia lhe deu pão de queijo, quentinho. Contou a ela, que entendeu, e deu força. Ela sempre entendia e encorajava, parecia sua mãe.
Subiu sozinha (dona Fulvia tinha medo do Jorginho), não disse nada ao homem que jazia no sofá, fumando um cigarro, nem ele perguntou nada. Subiu numa cadeira e foi pendurando girassóis, esparramando pelo quarto, sala e cozinha. O namorado já nem se importava com ela, ou com o que ela fizesse. Já nem mais faziam amor... seu Deus era a droga. No pouco tempo de sobriedade que lhe restava, ele passava arquitetando onde e como deixaria de estar sóbrio.
Nessa manhã, à frente da loja de um e noventa e nove, com o pai na cabeça e os girassóis nas mãos, Fernanda decidiu-se pela vida. Há sessenta e dois dias...
Era hoje, ou nunca. Apesar da cabeça que não parava de latejar, apesar de Jorginho, apesar mesmo dos girassóis, ela já se decidira a voltar para a Oásis. Telefonara para a diretora, dona Vera, do orelhão da esquina – a cobrar – e pediu para voltar. Não mais levada pela mãe, no carro grande, mas pelas próprias pernas. Não mais sugestionada por conselhos, mas arrastada pela dor.
Fernanda estava cansada da vida de morte que levava, cansada de traficar para comer, de se prostituir para conseguir droga. Estava cansada das lembranças do pai, com saudade do quindão que a mãe fazia, com saudade dos girassóis...
Tomou um café, pegou a mochila com as poucas roupas que sobraram (de todas as que já tinha vendido), pensou até em passar batom, mas teve medo que Jorginho notasse.
Pulou para alcançar um dos girassóis, e saiu do prédio com a flor nas mãos e os olhos brilhantes.
Já havia se despedido de dona Fulvia, na véspera, e deixara com ela o telefone da Oásis. Pedira-lhe e. Já nem mais faziam amor... seu Deus era a droga. No pouco tempo de sobriedade que lhe restava, ele passava arquitetando onde e como deixaria de estar sóbrio.
Nessa manhã, à frente da loja de um e noventa e nove, com o pai na cabeça e os girassóis nas mãos, Fernanda decidiu-se pela vida. Há sessenta e dois dias...
Era hoje, ou nunca. Apesar da cabeça que não parava de latejar, apesar de Jorginho, apesar mesmo dos girassóis, ela já se decidira a voltar para a Oásis. Telefonara para a diretora, dona Vera, do orelhão da esquina – a cobrar – e pediu para voltar. Não mais levada pela mãe, no carro grande, mas pelas próprias pernas. Não mais sugestionada por conselhos, mas arrastada pela dor.
Fernanda estava cansada da vida de morte que levava, cansada de traficar para comer, de se prostituir para conseguir droga. Estava cansada das lembranças do pai, com saudade do quindão que a mãe fazia, com saudade dos girassóis...
Tomou um café, pegou a mochila com as poucas roupas que sobraram (de todas as que já tinha vendido), pensou até em passar batom, mas teve medo que Jorginho notasse.
Pulou para alcançar um dos girassóis, e saiu do prédio com a flor nas mãos e os olhos brilhantes.
Já havia se despedido de dona Fulvia, na véspera, e deixara com ela o telefone da Oásis. Pedira-lhe que avisasse a mãe de sua decisão, ela ainda não tinha coragem de olhar para seus olhos cansados...
Na manhã clara de sol e Sábado, ninguém entendia por que aquela moça ria, mochila nas costas e um girassol nas mãos.
A caminho da Rodoviária. Ou melhor, no caminho de volta à vida.

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