Eu e a vida
Cáritas Souzza
Guardo a viscosidade da seiva da árvore ou de um fruto silvestre perdido nos campos saturados pela mão do tempo.
Recordo que ia para escola solitária e encabulada, trocando passos comigo mesma, e falando apressada para dentro do interior de mim mesma.
As colegas iam conversando dentro do ônibus, alegres e convictas e, eu só tinha de segurança a maçã e a térmica na mochila, juntas com os cadernos encapados com capa de papel madeira que deixavam todos iguais e, onde não se diferenciava qual era o de geografia, matemática ou o de português.
Minha letra era muito feia para que pudesse exibir à alguém.
Tentei falar isso para minha mãe e ela não entendeu. Lembro que senti seu beijo para me consolar, pois toda mãe beija o rosto dos filhos quando não os entende.
Dentro de minha timidez tinha que ensaiar para saber que palavras eu iria conversar no pátio no momento do recreio.
Se uma frase ou comentário não estavam previstos... Se uma colega me fazia uma pergunta... Eu permanecia, calada, assustada e desconfiada, com medo de soltar o que estava preso na garganta.
Dentro da minha timidez passava por orgulhosa e pedante diante de meus colegas de classe.
Eu era oposição de mim mesma. De tanto olhar para o chão, construí uma espécie de intimidade com as formigas.
No meu masoquismo, gostava de cavar a terra para descobrir as formigas se debatendo no formigueiro.
O triste é quando elas incomodadas com minha presença me picavam.
Me preocupei em ser feliz, o que gerou uma infelicidade imensa. Desde que nasci, fui mulher obstinada, dando trabalho para me configurar e desconfigurar continuamente.
Não paro para pensar no que eu quero obter. Tenho pressa pra realizar aquilo que realmente eu quero conseguir na ansiedade de ser feliz.
Procuro sempre sonhar, mas não quero me sentir saciada e completa ao acordar.
Texto meus limites, sem me importar com a resistência deles.
Fui irresponsável até perceber que a dor da alma pode ser maior do que o corpo físico da matéria.
Percebo que um poema imperfeito não é capaz de nascer de novo, porque aprendi que só se nasce uma única vez na vida.
Não se pode ter simpatia sem réstias de harmonia.
Os sentimentos são confusos, eles mudam de opinião com o simples toque de um desprezo, ao me sentir desprezada.
Minha gratidão é receio de me perder mais do que possa me encontrar. Não sei o porquê: Sei apenas que quando me confesso fico ainda pior do que estava com a falta de respostas esperadas.
Deus adora acabar com os meus segredos. A infância para mim, foi um mundo mais sombrio do que luminoso, pois ela me ameaçou para não obter a paz.
Continuo a permitir que a alegria possa conviver com a minha loucura. Não posso proibir sua convivência. Pois, uma depende da outra para que possa existir.
As duas se criaram de mãos dadas, partilhando confidências e guardando segredos inconfessáveis.
As duas são amigas da minha infância.
Aprendi hoje que amo inclusive o que a vida não me ofereceu.
de deus feliz mais meu minha mãe o quero vida