O dia se pôs sereno e tedioso; as roupas sujas, postas todas em sacos de supermercado, misturavam-se às limpas e faziam um redemoinho junto a sapatos, produtos de higiene pessoal, documentos e fotografias. Era a desordem do coração de um homem que aparecia nitidamente na forma material com que ele descompunha seus objetos. Fácil entender um ser confuso, quando se observa sua organização da vida e coisas. Pobre infeliz que se ía em busca de muito, sem saber o que era esse muito!
Pouco a pouco tudo foi posto nas malas, escondendo cores de uma vida, cheiros de um ato existencial, lembranças do que se foi e do que fica pra trás, mas escondido na alma. E de um súbito, ele trava os cadeados, suspirando a angústia da hora de dizer adeus a tudo que permaneceria ali, marcas indisfarçáveis e eternas dele próprio. Era o final que começava e não tinha volta.
Para aquele homem só restava caminhar trôpego escada abaixo, atirar-se à rua e deixar-se seguir em frente, no meio de vultos que por ele passavam, enquanto sombras se alternavam em tamanhos e formas, todos fantasmagóricos. Passo a passo, pipocavam companheiros, os pensamentos dispersos sobre o que ele era, para onde iria e o que desejava fazer dali em diante. Mas não havia somente dúvidas, pois no centro de toda divagação crepitava um objetivo: ser melhor do que foi até então e ser feliz.
Passada as primeiras horas dessa noite, quando já a madrugada pesava sobre as costas, viu que há células de vida em toda parte e que no que tange ao existir, sendo noite ou dia, bem ou mau, pobre ou rico, alegre ou triste, enfim, em todos os opostos ou não, o homem trajeta o fenômeno da vida sempre para se fazer melhor. Os que dessa bússola prescindem, padecem num misterioso vazio e se extinguem solitários.Era ele assim. Oh, dor que o maltrata a cada segundo dessa noite! Oh, vida que o pertence por tempo tão curto! Oh, mistura de quereres e insatisfações que o consomem cruéis e vorazes! Era preciso clarear os planos, e deles produzir um pouco de seiva para que a sobrevivência fosse o antônimo do amargor que se entranhara em seus neurônios. Bem mais fácil seria a solução que a companheira morte sussurrava aos seus ouvidos. Ele não titubearia em morrer, pois os planos massacrados pela realidade culminavam no suicídio como solução. Assim sendo, a trajetória ficou clara: morte, morte, morte, morte!!!
Sabe-se lá o que Deus prepara para seus filhos! Era a alvorada que surgia quando à beira da sacada do quarto de hotel em que se hospedara, ele encara o nascer do dia, de pé, solto, livre para saltar e pronto pra realizar seu desejo de liberdade, quando um pássaro trina seu canto bem próximo; quando os raios de sol surgem mansamente no horizonte; quando a visão do burburinho da vida lá embaixo se faz acompanhar pelo aroma do café matinal, e no quarto ao lado os sons de amantes saúdam a vida com seu gozo. Grita ele: - Jesus, estou te vendo pela primeira vez! Por décadas foste meu cotidiano e eu não soube te agradar, fazendo dos meus sonhos a rota da morte. Sinto agora teu calor, meu Deus! Encontrei meu começo, meio e fim. Te pertenço Senhor!!!
O corpo estronda no solo, desfigurado pelo impacto, maculado pelo sangue que jorra. Lapsos de vida se evidenciam nos tremores do último suspiro. Naquele findar ele encontrara a paz . A tempo de ver a Luz , aquele homem perdoara a si, e fora colhido pelo Pai antes que a profanação da vida com as marcas do suicídio lhe tomassem a oportunidade de voltar ao Criador nos desígnios da Salvação. Ele agora era feliz!

