Desentendimentos
Cáritas Souzza
O amor serve para apartar o excesso de palavras, assim como o momento de solidão serve para conceder trégua as lágrimas.
É como, dormir de tarde e se acordar de noite. O amor rouba o fuso horário do tempo, o contexto e a simplicidade. É uma presença carregada de fragilidade.
A realidade não basta. De repente, nos percebemos rindo sozinho, ao lembrar momentos vividos que se transformam em doces recordações.
Ao recordar recordamos também, do absurdo de ver mais do que se deveria, pelo excesso de fantasias criadas pela imaginação.
O que era impensável parece adequado. Não se enxerga somente o passado de quem se ama, mas tudo o que se oferece de futuro.
Pois, nada apaga a incerteza do amanhã. O medo da perda do outro, que se auto-denomina de insegurança.
É uma vontade de terceirizar a vida e não deixar que os outros à administrem e tomem as decisões em nosso lugar.
Fico arrependida ao brigar. Não planejo minha raiva a ponto de soltá-la devagar, com humilde arrogância, se é que existe algo assim.
Não saio de uma discussão com a convicção de que estava certa.
Sempre percebo meus erros exagerados, e meus ciumes sem lógica.
Não saio leve, com a calma de quem fez o que deveria fazer. Saio arrependida de palavras ditas erradas. Saio sofrida por fazer sofrer a quem amo.
Não saio impune, não saio convicta. Saio esperando a aceitação do pedido de desculpas que solicito ao outro.
Saio ofendida, alterada, com a respiração presa. Como se tivesse sido espancada por abelhas revoltadas. Entro em desativação total de mim mesma. Discutir me faz mal, como se de repente eu fosse coberta por um luto que me veste à alma.
Nas cobranças e ironias eu me vejo como uma mentirosa, que não soube tocar e amar a não ser pela violência e possessividade.
Exagerei na maldade, falei o que não quis dizer, falei o que nunca deveria ter falado. Mas, falei e agora há uma responsabilidade por ter falado. Por ter magoado.
E as palavras que eu disse involuntariamente serão cobradas por quem magoeei. Serão catalogadas, fichadas, examinadas com rigor. Brigar é estornar o depósito da fidelidade e da harmonia. É desmerecer. É desqualificar. É rebaixar logo o que mais valorizamos, para aparentar seriedade e preocupação.
É bancar a triste e ofendida para tentar convencer que sou mais triste e ofendida do que aquele com quem briguei.
Briga-se para assegurar exclusividade da dor, quando poderia garantir no lugar das discussões, a exclusividade da alegria. Pode ser ciúme, inveja, incompreensão. Nenhuma briga começa por um motivo generoso, e sim por banalidades.
Saio de toda discussão querendo fazer imediatamente as pazes. Não suporto dormir brigada, não suporto atravessar a noite no desentendimento, não suporto as indiretas, não suporto ser bloqueada e não suporto observar o meu próprio desconcerto fingindo olhar algum filme na tevê.
Acho que sou fraca, sou tola, porém engulo de volta o orgulho, como quem é obrigada a tomar um remédio amargo de uma só vez.
Um remédio para controlar a fúria da memória, a acidez do estômago e a rigidez dos lábios.
Peço desculpas ainda que não seja a culpada. Tento refazer à amizade com o sorriso. Tento apelar para o abraço. Tento inclinar o rosto em barco, ainda que o barco engatinhe em terra seca, ainda que o barco demore para a chuva, ainda que o barco seja o leme de uma árvore.
Ao brigar, procuro os cartões, mensagens de e-mails que mandei e que recebi.
Não é o momento de rever nada!!!! As lágrimas embaçam a visão. Admiro qualquer erro meu de concordância que encontro nos postais, nos e-mails de Natal e de aniversário, pois há espontaneidade no ato de dizer.
O deslize da minha ortografia é a paz que não encontro mais em mim. O deslize na minha ortografia é como um beijo que salta do rosto e estala nos ouvidos, e que vai ser depositado no rosto de quem briguei num pedido de perdão.
Então, depois de chorar todas as lágrimas de arrependimento das minhas culpas, vou para cama tentar dormir.
A mulher se reduz para poder dormir.
E, ao me encolher, deixo espaço para o amanhecer chegar em um novo dia e, o homem que já existe em minha vida poder pensar e, querer novamente para mim voltar.
amar amizade amor aniversário de mais meu minha o vida