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 A história do meu pinto


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A história do meu pinto

Tonico Nascimento


A história, narrada a seguir, aconteceu no início dos anos sessenta, do século passado, na Tijuca, lá na Serra da Formiga. Como já narrei anteriormente, nós somos originários do Morro da Formiga e, minha mãe tinha como costume, presentear os filhos com os filhotes dos animais que mantínhamos no quintal. Naquela época tínhamos a Princesa, cabra que nos fornecia leite, uma galinha poedeira que nos fornecia ovos, sendo alguns deixados a chocar, para que houvesse sempre um frango ou uma galinha pronto para qualquer eventualidade, na guarda da casa contávamos com Lorde, um cão mestiço, vira-latas com pastor-alemão, não podíamos confiar plenamente nele, pois ele assustava mais pelo tamanho do que pela ferocidade.



Um belo dia, após o nascimento de uns seis pintinhos, a galinha ciscando no quintal acompanhada dos filhotes e, minha mãe admirando a cena para distribuição final; ao perceber que um pintinho era bem mais fraquinho do que os outros, não sei porque cargas d’águas ela lembrou-se de mim, assim sendo, eu me tornei dono do pintinho mais fraco do quintal. Logo apelidado de Wakamoto, se não me falha a memória, um antigo fortificante japonês, que fazia grande sucesso à época, devido à sua exuberância física.



Assim, num ambiente de cumplicidade, eu e Wakamoto vamos crescendo juntos. Espantosamente, Wakamoto vai se transformando rapidamente num belo frango. Ainda me lembro que Wakamoto era de uma soberba impressionante, dominava o terreiro com postura gaviônica, imponente, peito estufado, cabeça erguida e olhar intimidador. Ele era tão marrento, mas tão marrento, que o Romário perto dele era pinto. Era ele o verdadeiro dono do terreiro.



Um dia, o Velho Perdigão chega em casa não se sentido muito bem e, após uma rápida consulta com minha mãe, vem a receita alimentar para o dia seguinte: CANJA DE GALINHA. O terreiro fatalmente ficará desfalcado, penso comigo.



Dia seguinte pela manhã, o galinheiro é aberto e as penosas ciscam faceiras no quintal, sem perceber o perigo que as rodeia. Minha mãe, postada na porta principal da casa e eu, sentado um degrau abaixo, acompanhando despreocupado a procura de uma ou de um que pudesse dar uma boa canja para o fortalecimento do Velho em convalescença. A procura é demorada, e eu continuo ali sem a menor preocupação. De repente, minha mãe decidida diz: É Wakamoto! Instintivamente eu pulo de onde estou sentado, e grito: WAKAMOTO NÃO!!! Dito isso, já me encontro com meu parceiro embaixo do braço, para desespero de minha mãe.



Minha mãe tenta uma negociação comigo, mas seria mais fácil apaziguar israelenses e palestinos do que me demover da idéia de salvar a vida de Wakamoto, ainda mais, que tinha opção no quintal. Nesse dia infelizmente, o Seu Domingos, que entregava pão em casa, não havia aparecido e, nós tínhamos um fascínio por ir comprar pão no Seu Gervásio, uma tendinha que ficava próxima à nossa casa. Não deu outra, minha mãe aparece com o dinheiro e me autoriza a ir no Seu Gervásio. Sem atinar para o perigo, libero Wakamoto, que sai para reinar no terreiro. Não me demoro muito, mas é o suficiente. Quando boto os pés na entrada do quintal, já vejo algumas penas de Wakamoto espalhadas pelo chão, entro em casa para entregar a encomenda e, confirmo o meu temor: jaz degolado Wakamoto ao lado de uma panela com água fervendo. Desespero-me!!! Choro convulsivamente a perda do amigo e as lágrimas continuam até a hora do almoço.



Minha mãe serve a canja ao Velho, devia estar gostosa, pois ele come com grande prazer, nós também, sentados à mesa aguardamos os nossos pratos e, infelizmente não temos opção, continuo chorando, e na minha inocência infantil, culpo minha mãe pelo trágico final saudável de meu frango, mas não posso ficar sem almoçar, e não tendo alternativa, me vejo comendo uma das coxas de Wakamoto regada pelas lágrimas que escorrem aos borbotões pelo meu rosto. Minha mãe, mais uma vez, havia acertado na escolha!



Hoje, bastante tempo depois, ainda guardo na lembrança a postura imponente de Wakamoto, inclusive no prato, tenho certeza, que nenhum mestre em culinária prepararia um frango tão gostoso quanto ficou Wakamoto. Até na hora da morte Wakamoto foi elegante!



Quantas saudades desse tempo, que infelizmente, jamais voltará !!!




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